Se você colocar esse jogo na mão de uma criança hoje, dificilmente ela vai saber dizer se é antigo ou atual. A qualidade gráfica e sonora encara tranquilamente muitos títulos 2D contemporâneos.
Não são raros os casos em que sequências de franquias, quer de filmes, séries ou jogos, são piores que seus antecessores. Geralmente, os criadores presenciaram suas vidas mudarem graças aos frutos do seu trabalho e criação e, logo, pensam em repetir a dose, muitas vezes mais por um viés ambicioso de ganhar mais dinheiro do que, de fato, por uma necessidade genuína de continuação. No entanto, a história mostrou que a Nintendo parece ser à prova de títulos ruins, pois, mesmo quando erra, ainda acerta consideravelmente mais que seus concorrentes.
Donkey Kong Country [SNES] havia sido um sucesso de vendas mundial. O revamp da franquia dos arcades dos anos 80 caiu na graça do público, tornando-se o terceiro jogo mais vendido para o console, atrás apenas dos colossos Super Mario World e Super Mario All-Stars. Era evidente, portanto, que teria uma continuação; o público ansiava por isso.
Eram tempos diferentes. A quinta geração de consoles já havia chegado à Terra do Sol Nascente. A moda da vez eram os aclamados polígonos. Mesmo assim, Rare e Nintendo, mais uma vez, uniram seus esforços para construir uma masterpiece, considerada pela maioria das pessoas como o melhor jogo da franquia e celebrada no Top 10 da era 16 bits por muitas listas Internet afora.
E foi assim que Donkey Kong Country 2: Diddy’s Kong Quest veio ao mundo em 21 de novembro de 1995 no Japão, 1 de dezembro de 1995 nos EUA e 14 de dezembro de 1995 na Europa.
Sumário
Cadê o Donkey Kong?
A Rare tinha em suas mãos um delicado desafio: inovar o bastante para que Donkey Kong Country 2 não ficasse ofuscado perante o sucesso do jogo antecessor, mas não a ponto de desagradar a base instalada. Dessa forma, a primeira grande mudança que o jogador percebe já no início do jogo é a ausência de Donkey Kong como protagonista. Dessa vez, quem assume este papel é Diddy Kong. Inclusive, o subtítulo do jogo, “Diddy’s Kong Quest” (do inglês, a missão de Diddy), é também um trocadilho inteligente com “Diddy’s Conquest” (também do inglês, a conquista de Diddy), o que mostra a intenção clara da Rare em tornar Diddy um personagem de destaque.
Dixie Kong assume o papel de personagem secundária. Trata-se da namorada de Diddy e é a primeira personagem feminina jogável da franquia. O casal parte rumo a Crocodile Isle, o território inimigo, em busca de salvar Donkey Kong, que fora sequestrado por Kaptain K. Rool (aparentemente, o jacarezão resolveu mudar de profissão no segundo jogo). Mais uma vez, uma história simples, mas suficiente para gerar um plano de fundo para a gameplay.
Animal Buddies: Variedade que muda o Jogo
Um dos elementos que mais enriquecem a jogabilidade de Donkey Kong Country 2: Diddy’s Kong Quest são os Animal Buddies.
Diferente do primeiro jogo, aqui eles são usados de forma mais estratégica e criativa, alterando completamente a forma como o jogador interage com as fases.
Rambi retorna com sua força bruta, enquanto Squawks ganha mais protagonismo em trechos de voo. Já Squitter traz uma das mecânicas mais interessantes, permitindo criar plataformas com teias, e Enguarde continua essencial nas fases aquáticas.
Esses personagens, e outros, não são apenas extras — eles expandem a variedade de gameplay e ajudam a manter o jogo sempre dinâmico.
O Pirocóptero Primata e o Team Up
No final dos anos 80 e nos anos 90, tínhamos no Brasil um doce/brinquedo interessante: o Pirocóptero. Tratava-se de um pirulito que vinha com uma hélice. Ao terminar o doce, portanto, a haste do pirulito, juntamente com essa hélice, virava um helicóptero de mão. Lembro que brincávamos com isso em todo lugar, e eu costumava chamar Dixie Kong de Pirocóptero.
Fechando este parêntese, na minha opinião, a mecânica de Dixie de planar com seus cabelos esvoaçantes em forma de hélice é uma das mecânicas de gameplay mais incríveis dos videogames da época. Isso permitiu possibilidades até então impensadas, como a chance de alcançar lugares que Diddy não conseguiria, bem como nuances inéditas na franquia. Por exemplo, há fases bônus ao longo do jogo que exploram essa mecânica, e o jogador só consegue avançar por meio dela.
Além disso, pela primeira vez na franquia, agora os macaquinhos têm uma habilidade conjunta chamada Team Up. Essa habilidade é ativada com o botão A do controle, substituindo a troca de personagens, agora exclusiva ao botão SELECT. O Team Up ocorre quando o parceiro não ativo no momento monta nos ombros do outro e pode ser arremessado a lugares inalcançáveis, bem como contra inimigos a fim de derrotá-los. Trata-se de uma nova camada profunda e complexa de gameplay, que será intuitivamente explorada pelo jogador ao longo da jornada.
Ambos os personagens, Diddy e Dixie, são bastante diferentes de se controlar. Diddy continua sendo rápido e explosivo, mas ligeiramente mais controlado em relação ao primeiro jogo. Dixie, por sua vez, é mais lenta em todos os aspectos, mas essa desvantagem é nitidamente compensada com a habilidade de planar feito um helicóptero. Acredite, essa é a habilidade que mais vai te salvar ao longo do tempo.
Um Jogo que beira a Perfeição
É incrível jogar Donkey Kong Country 2 e perceber, sob a luz da comparação, como a Rare evoluiu o jogo em todos os aspectos. O mais crítico dos videogames terá muita dificuldade em encontrar defeitos nele. A começar pelos gráficos, estes seguem a premissa do anterior: tratam-se de sprites 2D extraídos de personagens renderizados em 3D, mas com um nível de detalhe e polimento ainda mais sensacionais.
Donkey Kong Country 2 é um jogo ambientado sob a ótica temática dos piratas. O primeiro mundo, Gangplank Galleon, acontece no antigo navio de King K. Rool, que agora se parece com um pirata dos mares, no estilo de Capitão Gancho, e resolveu tomar os ares com uma ave sombria em forma de… jacaré.
A gameplay é muito mais fluida e, dessa vez, a câmera acompanha o personagem de forma eficaz e inteligente. Os inimigos são mais bonitos, diversificados e criativos. Por exemplo, há alguns que você não consegue derrotar com a habilidade de spin, executada com o botão Y; já outros, só conseguirá derrotar dessa forma.
Algumas capturas de tela de Donkey Kong Country2: Diddy’s Kong Quest.
As fases possuem temáticas próprias e, muitas vezes, únicas dentro do jogo. Ao jogar novamente, agora com uma mentalidade adulta, peguei-me várias vezes perguntando: como foi possível serem tão criativos com essas fases? Por exemplo, temos um total de três fases com carrinho, umas das minhas preferidas. Cada uma delas possui uma mecânica totalmente nova a ser aprendida e explorada pelo jogador.
Porém, não se engane com o design fofinho e refinado de Donkey Kong 2. Com o tempo, a curva de dificuldade sofre uma escalada bastante considerável, o que fará os aventureiros passarem maus bocados. Até então, eu achava que Donkey Kong 2 era menos difícil que o seu antecessor, talvez pelo fato de eu não ter conseguido fazer 101% no primeiro jogo, mas não: de fato, Donkey Kong 2 é o mais difícil da franquia.
Show do Milhão, Museu e Escolinha
Donkey Kong Country 2 insere na franquia uma mecânica de “compra de favores” com diversos NPCs. As Banana Coins, coletadas durante a gameplay, podem ser trocadas por dicas do Cranky Kong no Monkey Museum e por salvamentos com Wrinkly Kong no Kong Kollege, sendo que, inclusive, salvar o progresso deixa de ser gratuito a partir da segunda vez em cada mapa.
Temos a adição de Swanky Kong com seu jogo de perguntas e respostas, estilo Show do Milhão, cujos prêmios podem chegar a até seis vidas por mapa que, no jogo, valem mais do que dinheiro. Além disso, até mesmo os pontos de voo do Funky Kong agora são pagos. Os macacos, definitivamente, aderiram ao capitalismo.
Os NPCs foram tratados com todo o carinho que mereciam. Por exemplo, os diálogos de Cranky Kong ressaltam ainda mais seu egocentrismo e mau humor. Ele, inclusive, em vários momentos, quebra a quarta parede, interagindo diretamente com o jogador. Wrinkly Kong, professora, pode também pedir para avisarmos ao Kaptain K. Rool que ele deve voltar para a escola. Entender esses diálogos, na época, não era possível para mim, pois eu praticamente não entendia nada de inglês, e o jogo não oferece tempo suficiente para que você possa traduzir com calma. Ainda assim, tais diálogos geram uma camada bastante interessante para o jogo.
Rumo aos 102%
Se os jogadores com perfil complecionista já haviam se esbaldado em Donkey Kong Country, o sucessor melhorou consideravelmente essa mecânica. Donkey Kong Country 2 inovou ao trazer o conceito de 102%; para alcançar esse feito, o jogador precisa colecionar dois tipos de moedas: as Bonus Coins, moedas douradas com o decalque do rosto de Kaptain K. Rool, e as moedas DK, que são um desafio proposto pelo próprio Cranky Kong, o primeiro Donkey Kong de seu nome.
Ao todo, são 75 Bonus Coins, utilizadas para liberar as fases do The Lost World, e 40 moedas DK, que não são necessárias para atingir o final verdadeiro, mas obrigatórias para os 102%, permitindo que o jogador vença seus concorrentes no ranking de Cranky Kong. Link, Yoshi e Mario aparecem aqui como forma de homenagem e intertextualidade com algumas das franquias mais importantes da Nintendo.
Em relação ao final verdadeiro, diga-me: quantos jogos você se lembra de trazer esse tipo de mecânica em 1995? Trata-se de uma parcela bastante restrita de títulos com esse nível de refinamento.
David Wise, de Novo!!
Ouvir a trilha sonora de David Wise em Donkey Kong 2 é experienciar a evolução de um músico. O que já era excelente em Donkey Kong Country foi elevado em sua continuação praticamente em todos os aspectos. As composições, além de mais refinadas e complexas, trazem personalidade marcante ao jogo. Como imaginar hoje este título sem a clássica Stickerbush Symphony, ou Mining Melancholy, ou ainda Forest Interlude?
Quando olhamos para Donkey Kong Country 2, a sensação é de que a Rare conseguiu se provar para a Nintendo e para o mundo com o lançamento do primeiro jogo e, aqui, teve mais leveza para, de fato, extrapolar seus limites criativos. Percebemos essa mesma característica nas composições de David Wise e podemos afirmar, com tranquilidade, que a trilha sonora de Donkey Kong Country 2 é a mais importante entre os jogos ocidentais do Super Nintendo, concorrendo apenas com títulos da própria franquia.
Easter Egg de Killer Instinct
Um dos jogos de luta mais importantes da época, também desenvolvido pela Rare, foi Killer Instinct, a clássica fita preta, e lançado em 1994.
Ao acessar o Monkey Museum em Donkey Kong Country 2, é possível perceber uma série de itens interessantes: uma máquina de arcade, o logo da Rare, a cabeça de um jacaré e um pôster na parede de um personagem que parece ter sido retirado de um jogo de luta. Trata-se de Chief Thunder, um dos personagens jogáveis de Killer Instinct.
Envelheceu como Vinho
Ao jogar Donkey Kong Country 2: Diddy’s Kong Quest atualmente, com grande alegria, mas também com certo pesar, percebemos que muitos jogos da atualidade, que eventualmente possuem orçamentos muito maiores, não apresentam a mesma qualidade, e aqui estamos falando de criatividade, arte e entrega.
Se você entregar Donkey Kong Country 2 para uma criança hoje, ela dificilmente conseguirá distinguir se é um jogo atual ou antigo. A qualidade sonora e gráfica bate de frente com títulos 2D da atualidade, sem sombra de dúvidas.
Incrementar a sessão de gameplay com as conquistas do RetroAchievements trará para você um desafio excelente, com um misto de frustração e satisfação. Ainda assim, considero ter sido uma experiência incrível. É extremamente satisfatório revisitar clássicos sob a ótica de conquistas, desafio e complecionismo. Além de proporcionar a sensação de domínio sobre o jogo, a dose dopaminérgica está garantida.
Estamos falando de uma masterpiece, na minha opinião, Top 5 do Super Nintendo, que não deveria faltar no portfólio dos amantes de jogos antigos, de jogos de plataforma e, principalmente, daqueles que buscam diversão genuína em suas jogatinas.
Análise em Vídeo por Arquivando Jogos
Gameplay não comenta por Arquivando Jogos
Comerciais e Trailers
Manual de Instruções [EUA]
Manual de Instruções [JPN]
Publisher: Nintendo
Desenvolvedora: Rare
Plataforma: Super Nintendo Entertainment System
Lançamento: 21 de novembro de 1995
Donkey Kong Country 2: Diddy’s Kong Quest evolui em praticamente todos os aspectos em relação ao seu antecessor. Mais refinado, mais desafiador e com um design de fases ainda mais criativo, o jogo representa o auge da fórmula estabelecida pela Rare no primeiro título da série. É uma verdadeira masterpiece do Super Nintendo, um exemplo de como sequências podem expandir e aperfeiçoar uma ideia já consagrada.
Além do refinamento técnico e visual, o jogo também se destaca pela atmosfera única, pela trilha sonora memorável e pelo excelente equilíbrio entre desafio e diversão. Cada mundo apresenta novas mecânicas e obstáculos, mantendo a experiência sempre fresca e envolvente.
Por tudo isso, Donkey Kong Country 2 não é apenas uma grande sequência: é uma obra-prima do console de 16 bits da Nintendo e um título absolutamente obrigatório na prateleira de qualquer amante ou entusiasta do Super Nintendo.
Prós
- Level design criativo e variado
- Trilha sonora memorável
- Evolução clara em relação ao jogo anterior
- Atmosfera e identidade visual marcantes
- Alto fator de rejogabilidade
Contras
- Curva de dificuldade elevada em alguns trechos