Para mim, é o segundo jogo mais importante do console e certamente figura entre os meus dez favoritos do SNES.
O Super Nintendo Entertainment System (SNES) vivia seu auge. Um catálogo repleto de jogos icônicos, qualidade sonora e gráfica inquestionáveis e uma posição de destaque na acirrada Guerra dos Consoles travada com a Sega, especialmente no mercado norte-americano. Ainda assim, a percepção geral era de que o console de 16 bits da Nintendo já havia atingido seu limite técnico e que qualquer evolução significativa a partir dali seria improvável. A história, no entanto, provaria o contrário.
Esse choque de realidade aconteceria na Consumer Electronics Show de 1994. Ali, jornalistas assistiam, incrédulos, a um jogo protagonizado por uma dupla de macacos rodando em um Super Nintendo comum, sem o uso de chips especiais no cartucho. Em meio aos primeiros movimentos da quinta geração de consoles, a Nintendo demonstrava que seu hardware ainda tinha espaço para surpreender, exibindo uma qualidade gráfica até então considerada impossível para o sistema.
Estávamos diante de Donkey Kong Country, título desenvolvido pela britânica Rare, então atuando como second party da Nintendo, e lançado oficialmente em 18 de novembro de 1994, curiosamente chegando primeiro à Europa antes de conquistar o restante do mundo.
Na minha avaliação, Donkey Kong Country é o segundo jogo mais importante da história do Super Nintendo. Seu impacto na indústria se equipara ao que Super Mario World representou quatro anos antes: uma quebra de paradigmas, uma extrapolação de expectativas e uma demonstração clara de superação técnica. Soma-se a isso seu enorme sucesso comercial, com 9,3 milhões de cópias vendidas, tornando-se o terceiro jogo mais vendido do console, número que inclui também as unidades comercializadas no bundle conhecido como Super Nintendo Donkey Kong Set.
Diante de tudo isso, não poderia ser outro, senão Donkey Kong Country, o próximo jogo a ser apresentado aqui no projeto Arquivando Jogos.
Sumário
Uma Franquia Adormecida
Donkey Kong apareceu ao mundo pela primeira vez no arcade lançado pela Nintendo em 1981. Tratava-se de uma adaptação feita por Shigeru Miyamoto (esse homem está em todas, não?) para o que seria um jogo do Popeye, barrado à época por questões comerciais. Olivia Palito foi transformada em Pauline; Popeye em Jumpman, um protótipo de Mario nos dias atuais; e Brutus em um terrível gorila, Donkey Kong, que escapou de Jumpman e fugiu para o topo de uma construção carregando consigo Pauline, namorada do, até então, carpinteiro bigodudo.
Donkey Kong ainda teve alguns jogos em arcade e no NES, ou Nintendinho, mas logo foi guardado na gaveta por alguns anos. Esse hiato, porém, não significou o fim da franquia. A Rare assumiria o controle da série, trazendo inovação, tecnologia e qualidade inéditas para o SNES, preparando o terreno para um retorno que surpreenderia o mundo dos games.
Rare, o Braço Ocidental da Nintendo
Na caixa do jogo de Donkey Kong Country podia-se ler a frase “An incredible 3D adventure in The Kingdom of Kong!” (Uma incrível aventura 3D no Reino dos Gorilas!). E, de fato, quando crianças, muitos de nós nos referíamos ao jogo como 3D. Mas as nuances técnicas por trás de sua produção eram muito mais complexas do que isso.
Nos anos 90, a Rare já atuava como braço estratégico da Nintendo, que chegou a possuir 49% da empresa. A Big N sabia que dominava o mercado japonês, mas precisava reforçar sua relevância no Ocidente, cujos gostos e costumes eram bem diferentes. A Rare tornou-se, portanto, um dos poucos estúdios ocidentais a integrar-se tão profundamente à gigante japonesa, tradicional em seu modelo de negócio e extremamente exigente em seus requisitos técnicos e de qualidade.
Da Modelagem 3D ao Sprite 2D
Com o aporte financeiro da Nintendo, a Rare adquiriu supercomputadores da Silicon Graphics, Inc. (SGI), máquinas inviáveis para a maioria das desenvolvedoras devido ao alto custo de dezenas de milhares de dólares. Para fins de comparação, esses computadores eram usados em produções cinematográficas clássicas, como O Exterminador do Futuro e Jurassic Park, filmes de referência em qualidade gráfica na época.
Após demonstrar seu trabalho à Nintendo, a Rare recebeu a proposta de desenvolver um jogo de plataforma de Donkey Kong nos moldes de Super Mario World. Shigeru Miyamoto, criador do personagem, não participaria diretamente do desenvolvimento, mas atuaria como consultor criativo, enquanto a produção completa ficaria a cargo de Tim e Chris Stamper, fundadores da Rare em 1985.
Os personagens, cenários e demais assets de Donkey Kong Country foram, de fato, modelados e renderizados em 3D nos supercomputadores da SGI. Porém, isso seria impossível de rodar diretamente no SNES. A solução, engenhosa e inovadora, foi exportar essas modelagens em sprites 2D, como se fossem fotografias de modelos tridimensionais. Esse método permitiu comprimir e executar o conteúdo nos cartuchos de 4MB da Nintendo, surpreendendo a todos e dando a impressão de um verdadeiro jogo em 3D em um console de 16 bits.
O Reino dos Gorilas
Donkey Kong Country se passa em uma ilha chamada Reino dos Gorilas. A história começa quando King K. Rool e seu exército de crocodilos, os Kremlings, resolvem roubar o tesouro de bananas dos macacos. Um enredo simples, mas que funciona extremamente bem como plano de fundo para a gameplay.
Donkey Kong, aqui, não é o mesmo do jogo de 1985. Trata-se do neto do herói original, que conhecemos como Cranky Kong, com sua bengala e humor áspero.
O protagonista do jogo é mais lento e pesado, o que contrasta com a experiência de se jogar com Diddy Kong, sobrinho do macaco principal. Este é mais rápido, pula mais alto, mas perde vantagem contra inimigos mais fortes. Dependendo da situação, você vai preferir jogar com um ou com outro.
Ao longo das fases, a dupla enfrenta desafios que crescem rapidamente em dificuldade. Os estágios finais foram desenhados para serem punitivos até que o jogador os memorize bem. Apesar disso, é possível rejogar fases anteriores em busca de vidas extras, tornando toda a experiência mais equilibrada.
Algumas capturas de tela de Donkey Kong Country.
Qualidade de Vida é Rei
Donkey Kong Country é um jogo de uma era que começava a se distanciar dos clássicos de arcade. Isso pode ser observado, por exemplo, pelo fato de não haver pontuação no jogo, algo sem sentido em consoles caseiros, geralmente jogados por poucas pessoas. Além disso, a capacidade de salvar o progresso, graças a uma bateria acoplada no cartucho, resolveu problemas como passwords digitados de forma errada e perdas de progresso. Mas, para usufruir disso, era preciso ser um privilegiado de posse de uma cópia original; as versões piratas da época não tinham a tecnologia necessária.
Em contrapartida, Donkey Kong Country estabeleceu o conceito de 101% de progresso. Hoje, esse poderia facilmente ser classificado como um dos melhores desafios dopaminérgicos dos games. Alcançar os 101% significava que o jogador fazia parte do seleto grupo que explorou minuciosamente cada canto, buraco e barril escondido ao longo das 40 fases — que podem ser completadas em cerca de 1h30 se o jogador souber exatamente onde ir e o que fazer. Este era o conceito de platina da época.
Nesses momentos, as revistas de games da época brilhavam, com matérias detalhando todos os segredos e bônus dos jogos. Se eu tivesse uma dessas em minha juventude…
Dupla Dinâmica em Ação
Apesar de não ter sido o primeiro jogo a permitir controlar dois personagens, desconheço qualquer título anterior que tenha integrado essa mecânica tão bem à jogabilidade como Donkey Kong Country. Como comentado anteriormente, os dois macacos são bastante diferentes de controlar, e contexto, inimigos e localização podem fazer você preferir jogar com um ou outro. Para alternar entre eles, basta apertar o botão A ou Select do controle, e os personagens batem as “mãos” em sinal de parceria antes de trocarem de lugar.
No modo multijogador cooperativo, cada jogador pode controlar um macaco, trazendo uma interação incrível entre os participantes. E você aí que achou que It Takes Two era inovador, não é mesmo?
Durante as fases, podemos colecionar bananas, similares às moedas de Super Mario. Cem bananas dão direito a uma vida extra. Há balões escondidos que também rendem vidas, além de letras espalhadas em cada fase que formam a palavra KONG — às vezes em locais nada óbvios.
O destaque, contudo, vai para os bônus secretos. Cada fase possui um número variável de bônus (algumas não têm nenhum!). Você saberá que coletou todos quando, ao lado do nome da fase, aparece um sinal de exclamação (!), indicando que você está no caminho certo.
Inspirando-se em Yoshi, o jogo oferece montarias especiais ao longo das fases. Por exemplo, o peixe-espada Enguarde torna sua movimentação na água mais fluida e ainda protege o jogador de inimigos em linha. Existe, inclusive, um bônus secreto que você acessa ao coletar três tokens dourados de cada um dos amigos pets, garantindo um expressivo bônus de vidas extras.
Legado entre gerações
Cranky Kong, em alguns momentos, diz o seguinte em sua cabana, em tradução livre: “Você se lembra do Donkey Kong original? Acho que eu vou jogar ele… vejo vocês depois”.
Pesquisando para este artigo, descobri que Cranky Kong não é nada mais, nada menos que Donkey Kong, o protagonista do jogo de 1981. Agora, ele passa o bastão para o seu neto que deverá resolver um sério conflito com King K. Rool e seu exército de crocodilos.
O Ocidente Também Sabe Fazer Música
As trilhas sonoras mais marcantes do Super Nintendo, ao longo dos anos, ficaram por conta dos orientais. Eles, certamente, possuem aquele “molho” que faz qualquer um se identificar quase que imediatamente com suas composições. Estamos falando de Koji Kondo (Super Mario e Zelda), Yasunori Mitsuda (Chrono Trigger), Nobuo Uematsu (Final Fantasy e apoio em Chrono Trigger) e tantos outros, membros de equipes de gigantes como Capcom, Konami e afins.
Mas David Wise mostrou ao mundo que o Ocidente também tinha condições de criar trilhas que impactam — talvez de forma diferente. As músicas de Donkey Kong Country trazem um ar de modernidade e uma assinatura ocidental bem distinta. Muitos efeitos de sintetizadores e a vibe pop permeiam suas composições. O tema Aquatic Ambiance, por exemplo, é simplesmente de “encher os olhos”, enquanto faixas mais tensas, como Mine Cart Madness, fazem o jogador suar as pontas dos dedos ao controlar carrinhos de mineração em trilhos extremamente perigosos.
São composições eternas, que serão ouvidas por nossos filhos e pelos filhos de nossos filhos. Diga-me: quantas pessoas, até hoje, tiveram essa capacidade?
Polimento e Conquistas
Donkey Kong Country não é perfeito. Em algumas ocasiões, confesso que fiquei um pouco irritado com questões de hitbox. Além disso, a câmera pode ser seu pior inimigo em fases mais verticalizadas, e até mesmo na batalha final contra King K. Rool. Não considero que ele tenha envelhecido tão bem quanto seus sucessores, que, diga-se de passagem, aprimoraram drasticamente a jogabilidade. Ainda assim, é muito satisfatório jogar algo com mais de trinta anos e perceber que continua acessível e factível, mesmo em um mundo de games tão mais técnico como o de hoje.
Para os aventureiros do RetroAchievements, o conjunto de Donkey Kong Country é relativamente fácil, desde que você domine as nuances do jogo. Há conquistas no estilo de Speedrun, e será preciso saber o que está fazendo para garantir sucesso na empreitada.
Este é Essencial
Donkey Kong Country é um jogo simples, porém ousado e ambicioso. Ele virou uma chave em uma época em que poucos se aventuravam com elementos 3D nos games e elevou o padrão de qualidade de toda uma década. Trata-se de uma franquia de extremo sucesso da Nintendo, que, curiosamente, deve grande parte de sua fama a um estúdio europeu que hoje faz parte do portfólio da Microsoft.
O jogo não é um “morango”, mas, quando comparado a clássicos desafiadores do console, torna-se totalmente viável para todas as idades. Para os complecionistas e platinadores, o conjunto do RetroAchievements é divertido e acessível; para os amantes do SNES, é um título essencial. Para mim, é o segundo jogo mais importante do console e certamente figura entre os meus dez favoritos do SNES.
Análise em Vídeo por Arquivando Jogos
Em breve…
Gameplay não comenta por Arquivando Jogos
Comerciais e Trailers
Manual de Instruções [EUA]
Manual de Instruções [JPN]
Publisher: Nintendo
Desenvolvedora: Rare
Plataforma: Super Nintendo Entertainment System
Lançamento: 18 de novembro de 1994
Donkey Kong Country surgiu justamente no início da transição entre gerações e provou que o console de 16 bits da Nintendo ainda tinha “muita lenha para queimar”. Os gráficos do jogo se tornaram o principal destaque da estratégia de marketing da Nintendo no Ocidente, com atenção especial ao mercado norte-americano. O impacto visual foi tão grande que muitos jogadores e jornalistas da época chegaram a questionar como era possível que um SNES comum conseguisse exibir aquilo, gerando um efeito de surpresa e admiração instantâneos.
Prós
- Gráficos pré-renderizados em 3D com uma tecnologia pioneira na época.
- Gameplay divertido com foco em progressão.
- Possibilidade de salvar em pontos específicos em cada mapa.
- Uma das trilhas sonoras mais icônicas do SNES e, quiçá, dos videogames.
Contras
- A câmera é o seu maior vilão, principalmente em telas verticalizadas e em batalhas de chefe.
- Problemas de hitbox com inimigos, portas secretas, e afins.