...nostalgia é um dos ativos mais poderosos do entretenimento.
Pokémon faz 30 anos em 27 de fevereiro de 2026. Na última semana, mais uma vez, a bolha gamer entrou em polvorosa com o anúncio do port para Nintendo Switch e Nintendo Switch 2 dos jogos Pokémon: FireRed e Pokémon: LeafGreen, originalmente lançados para Game Boy Advance em 2004.
Apesar de o Nintendo Switch contar, dentro do serviço Nintendo Switch Online + Pacote Adicional, com uma biblioteca crescente de jogos de Game Boy Advance, Pokémon: FireRed e Pokémon: LeafGreen serão vendidos separadamente. O preço é de US$ 19,99 cada nos Estados Unidos e R$ 120,99 no Brasil, e isso foi o suficiente para a internet pegar fogo.
Nas Redes Sociais, formaram-se claramente três grupos. O primeiro é composto por aqueles que vão comprar os jogos e ainda se sentem moralmente superiores por isso, como se estivessem financiando a preservação histórica da humanidade. O segundo grupo reúne os que não vão comprar e fazem questão de atacar quem compra, a Nintendo, a The Pokémon Company, o capitalismo, os impostos e, se deixar, até a rotação da Terra. O terceiro grupo é o mais silencioso: quem simplesmente viu valor naquilo, comprou e quer apenas jogar em paz.
Eu, como fã declarado da franquia Pokémon, considero Pokémon: FireRed e Pokémon: LeafGreen algumas das melhores experiências já produzidas dentro da série. Para mim, são as versões definitivas da primeira geração. Pretendo adquirir os jogos, mas não agora. E por um único motivo: eu vejo valor nisso.
Percepção de Valor
Imagine dois pães de mel sobre uma mesa. Foram feitos com os mesmos ingredientes, têm o mesmo peso, o mesmo sabor e a mesma qualidade. O da esquerda está solto sobre um guardanapo de papel. O da direita está embalado em um saquinho transparente, bem selado, com acabamento em fita de cetim.
Você pode escolher apenas um. Qual pega?
O valor de um produto não está necessariamente no que ele é, mas no que você acredita estar recebendo.
Todos os dias escolhemos produtos mais caros do que alternativas praticamente idênticas, simplesmente porque enxergamos mais valor neles. Sabe aquele iPhone que muita gente troca todo ano? Pois é.
Pokémon é a franquia de mídia mais valiosa do mundo, superando gigantes do entretenimento como Star Wars e Marvel. Apple, por sua vez, figura consistentemente entre as marcas mais valiosas do planeta, ao lado de Microsoft, Google e Amazon. O que acontece com produtos de marcas assim? Eles custam mais caro, porque o valor percebido é maior.
Digo isso não para defender empresas que reaproveitam seus próprios produtos ao longo das décadas, mas para contextualizar. A Nintendo não foi a primeira e definitivamente não será a última a revisitar seu catálogo para capitalizar em cima dele.
Remasters, Remakes e Relançamentos: é Tudo com R de Equipe Rocket
No princípio da Terra, tudo era original. Com o tempo, entendemos o conceito de intertextualidade. No dicionário, trata-se da relação ou influência que algo estabelece em outra coisa, de forma explícita ou implícita. Em termos mais populares, nada se cria, tudo se transforma.
Um dos remakes mais emblemáticos da própria Nintendo é Super Mario All-Stars, lançado em 1993 para Super Nintendo. A coletânea trouxe versões refeitas de Super Mario Bros., Super Mario Bros. 2, Super Mario Bros. 3 e incluiu Super Mario Bros. The Lost Levels, que até então não havia sido lançado oficialmente no Ocidente. Houve atualização gráfica, sonora e refinamentos técnicos. Foi um remake que agregou valor real e apresentou a franquia a uma nova geração.
Agora olhe para The Last of Us. Originalmente lançado em 2013 para PlayStation 3, ganhou um remaster em 2014 para PlayStation 4 e um remake completo em 2022 para PlayStation 5. A versão mais recente trouxe melhorias visuais e técnicas, mas abriu um debate legítimo: era necessário refazer um jogo tão recente?
Grand Theft Auto V talvez seja o caso mais emblemático de todos. Lançado em 2013 para PlayStation 3 e Xbox 360, foi relançado nas gerações seguintes e no PC, sempre com melhorias técnicas incrementais. E a maioria das pessoas não reclama. Por quê? Porque o jogo é bom e o valor percebido continua alto.
No fim do dia, Nintendo, Sony, Rockstar e qualquer outra gigante da indústria têm o mesmo objetivo: lucro. Não existe ONG no mercado de videogames. Existe planejamento estratégico, acionistas e metas financeiras. Os produtos serão vendidos pelo preço que o mercado aceitar pagar.
A Fadiga da Nostalgia
Existe, sim, um cansaço coletivo com relançamentos constantes. Existe uma sensação de que a indústria às vezes prefere revisitar o passado a correr riscos no presente.
Mas também existe algo que raramente é dito: nostalgia é um dos ativos mais poderosos do entretenimento.
No caso de Pokémon: FireRed e Pokémon: LeafGreen, estamos falando de versões que já eram remakes da primeira geração. São releituras de um clássico de 1996, refinadas em 2004, agora relançadas novamente mais de vinte anos depois.
É um ciclo, e ele funciona; se não funcionasse, não aconteceria.
Compra Quem Quer
Essa frase talvez nunca tenha feito tanto sentido.
A mesma pessoa que chama de trouxa quem paga R$ 120 em um port de Pokémon: FireRed ou Pokémon: LeafGreen, paga R$ 300 em um combo de bebida na balada sem piscar. No fim das contas, qual é a diferença? Um enxerga valor em uma coisa. O outro, em outra.
Desde que o mundo é capitalista, funciona assim.
O mercado não sustenta empresas que erram constantemente na percepção de valor. Se sustentasse, a Ubisoft estaria nadando em prosperidade eterna sem precisar se reinventar.
Videogame é entretenimento. É lazer. Talvez, para mim, valha a pena pagar esse valor por um jogo que carrega um peso nostálgico enorme, principalmente por não ter tido a oportunidade de jogá-lo oficialmente na época. Talvez eu queira viver essa experiência da forma mais próxima possível do lançamento original, só que no hardware atual.
E quem não vê valor nisso pode continuar jogando no emulador. Inclusive, completar os sets de Pokémon: FireRed e Pokémon: LeafGreen no RetroAchievements é uma experiência excelente e extremamente divertida.
No fim, jogue do seu jeito. E deixe o outro jogar do jeito dele.