Porque, no fim das contas, a gente só queria se divertir…
Conforme os anos vão passando, me pego comparando o mundo atual com uma época que vivi em que tudo parecia mais lento, mais íntimo e, sobretudo, analógico. A frase “na minha época” está cada dia mais presente nos meus discursos e opiniões sobre vários assuntos e, com os games, não poderia ser diferente.
Vivo preso a uma roda dos ratos em vários aspectos da vida e, para minha tristeza, isso também se reflete nos games. Jogos demais, tempo de menos. Platinas, rankings, speedruns e jogos como serviço vão minando minha vontade de me aventurar em títulos novos com suas 300 horas de gameplay, DLCs infinitas e milhares de coletáveis.
Para piorar, decidi profissionalizar o meu maior hobby. Como consequência, muitas vezes o videogame deixa de ser apenas divertido e passa a ser objeto de performance. Quanto eu evoluí no meu backlog? Quantas platinas conquistei este ano?
Quero falar sobre essa dualidade entre produtividade e ociosidade, diversão e performance, e sobre como vejo isso afetando a relação das pessoas com os hobbies no geral e, em especial, com o videogame.
No meu Tempo, era Diferente
Vivi minha infância em uma época em que jogar videogame era coisa de “nerd”, aqui no sentido pejorativo mesmo. Morava em um bairro periférico da zona sul de São Paulo e, por uma série de acasos do destino, tive o privilégio de ter um videogame em casa: um Super Nintendo, que me acompanhou por pouco mais de dez anos.
Naquela época, a molecada se dividia basicamente em dois grupos. Os que jogavam nos fliperamas dos bares e os que jogavam em casa. Os “caseiros”, meu caso, dependiam de alugar jogos em videolocadoras ou de trocar cartuchos com amigos da escola, vizinhos e conhecidos. Conhecer jogos novos, muitas vezes, só era possível folheando revistas especializadas como Ação Games e Nintendo World.
Era uma era de escassez. Nem sempre a locadora tinha o jogo que você queria para o fim de semana. E, quando não tinha, a gente se contentava com qualquer coisa. O foco não era otimizar a experiência. Era simplesmente jogar. E se divertir.
A palavra que melhor define aquele período, para mim, é intensidade. Jogávamos menos jogos, mas jogávamos mais profundamente. Hoje, quando passo os olhos por centenas de e-mails diários, vídeos banais em redes sociais, notificações infinitas, e em uma vasta biblioteca digital de games oferecidos como serviço, percebo o quanto nossa relação com o mundo se tornou superficial. Isso se reflete na comunicação, nas relações interpessoais, nos negócios, nas amizades e até no simples ato de almoçar sem estar conectado. Na ânsia de performar o tempo todo, nos tornamos rasos, indiferentes e, infelizmente, altamente manipuláveis.
Jogos entre o Excesso e a Performance
Os jogos não escaparam desse processo. Assim como o cinema atual e a chamada Netflixzação do conteúdo, que privilegia quantidade em detrimento de qualidade, o videogame passou a ser moldado por uma lógica de alta performance. Hoje, para um jogo ser considerado bom, deverá durar pelo menos umas 100 horas. Precisa ser quase um segundo trabalho, repleto de side quests infinitas e enfadonhas, onde você salva o mundo repetidas vezes.
É como se estivéssemos tentando compensar a falta de reconhecimento, estabilidade e sentido que o trabalho contemporâneo deixou de oferecer em uma vida paralela gamificada. Um ambiente onde o esforço sempre gera uma recompensa clara, mensurável e imediata.
Nesse cenário, deixamos de querer jogar e passamos a ter que jogar. Não para nos divertir, mas para não perder o passe de temporada, a quest diária ou o ranking semanal. Em troca, recebemos moedas virtuais, skins descartáveis e uma breve descarga dopaminérgica de “dever cumprido”.
Se não bastasse, hoje comparamos listas de backlogs. O influencer que zera mais de cem jogos por ano é ovacionado. O platinador é considerado mais “gamer” que os demais. “Jogador casual” virou quase um xingamento. O FOMO (fear of missing out, do inglês, medo de ficar de fora) nos faz gastar 500 reais em jogos “quádruplo A”, muitas vezes lançados às pressas e incompletos, apenas para satisfazer acionistas.
E muitos, inclusive eu, tiveram a brilhante ideia de matar seus próprios hobbies, transformando-os em criação de conteúdo, na esperança de que isso se tornasse uma extensão para o mundo de sua persona, uma segunda renda ou, quem sabe, o próprio ganha-pão.
Vergonha de se Divertir
A sociedade do trabalho e da alta performance nos doutrina a acreditar que não temos tempo a perder. “Todos temos as mesmas 24 horas” e precisamos “trabalhar enquanto eles dormem”. O resultado é simples: momentos de ociosidade passam a ser vistos como desperdício.
Se você vai ler um livro, precisa ser algo sobre crescimento pessoal ou profissional. Se vai jogar videogame, precisa render conteúdo, números, engajamento ou algum tipo de retorno mensurável.
Essa dinâmica vem nos tornando apáticos, frágeis e constantemente cansados. O que antes era diversão passa a carregar culpa. O lazer precisa se justificar. O hobby precisa performar.
Estamos Cansados
Eu sei disso porque vivi isso na prática. Crio conteúdo de games há seis anos. O projeto Arquivando Jogos, um de muitos projetos pessoais voltados para este fim, nasceu do amor pelos videogames, da vontade de preservar e catalogar esse legado. E, apesar de eu não me arrepender do caminho que escolhi, também reconheço que transformar um hobby em obrigação não foi, necessariamente, a melhor decisão.
Quando até o lazer passa a exigir constância, metas e desempenho, algo se perde no processo. Jogar deixa de ser descanso e vira tarefa. O prazer dá lugar à cobrança, muitas vezes autoimposta.
Talvez o problema não seja querer jogar melhor, produzir mais ou levar as coisas a sério. O problema é quando a lógica da alta performance invade todos os espaços da vida, inclusive aqueles que deveriam existir justamente para nos aliviar dela.
Porque, no fim das contas, a gente só queria se divertir…